Contos Musicais

Por trás de uma grande canção, uma grande história

Na sala de espera do paraíso

Ela cruzou a sala de audiência, acompanhada de seu novo advogado. Seu novo namorado. Estava tudo pronto para o divórcio. Aindo guardo com muita mágoa a acusação de agressão. Lembro do dia em que chegou a intimação. Estava comemorando meu aniversário – o primeiro sem ela – quando recebo a ilustre visita do oficial de justiça. Com os olhos prestes a desabar um rio de lágrimas, pedi que todos se retirassem…
É impossível olhar pra ela e não lembrar da festa surpresa que me preparou quando ainda nem namorávamos. Impossível esquecer quando ela entonou com sua doce, mesmo que desafinada, voz a canção “Os outros”, sucesso do Kid Abelha. Por muito tempo eu acreditei que, depois de mim, os outros eram mesmo os outros, e só. 

Lembro-me de uma pesquisa que li na internet, comprovando que, por natureza, os homens são poligâmicos. Durante todo o tempo em que estivemos juntos, eu jurei não fazer parte dessas estatísticas. Eu gostava de diariamente, reafirmar o que eu sentia – e sinto – por ela. Gostava de fazer com que ela se sentisse importante. Quando não sabia fazê-lo com carinhos, comprava presentes. E como ela gosta de tiaras de ouro e anéis de brilhantes… Sorrisos que custavam caro.

Quando completei 3 anos na empresa, resolveram comemorar. Sempre fui muito querido no ambiente de trabalho. Ao convidá-la, trocou a festa da empresa pelo penúltimo capítulo da novela. Nem mostrei-lhe seu novo vestido, que comprei para a ocasião. Prometi vingança, bebi mais do que deveria. Todos os drinks, dos mais diversos nomes, ocuparam meus copos, para amenizar a frustração de sua ausência. Ao fim da festa, chamaram um táxi para que me levasse de volta. Quando eu cheguei, o motorista já tinha recebido dos meus colegas, mas ainda assim dei mais do que o convencional de gorjeta.

Com alguma dificuldade, abri a porta, afrouxei a gravata e tirei os sapatos. Atravessei o hall do apartamento. Quem era aquele desconhecido ocupando meu lugar na cama? Bati a porta do quarto com muita violência. Ouvi seu grito. Sentei no sofá da sala e deu para ouvir a porta se abrindo. Quando ela veio ao meu encontro, empurrei-a com raiva. Só vi quando caiu sobre a mesa de centro e cortou o braço no vidro do tampo, estilhaçado no meio do ódio, lágrimas e sangue, muito sangue. Ainda fiquei alguns segundos diante daquela cena, onde o desespero bruscamente havia tomado conta de mim.
Sem calçar os sapatos, saí com a mesma roupa que cheguei. O elevador demorou muito mais do que o normal, e desci correndo as escadas desde o sétimo andar. Fiz sinal para o táxi e fui para a casa da minha mãe, onde fiquei.

Há 10 semanas descobri que tenho câncer. Aqueles sinais em meu ombro, que ela gostava de contar enquanto tomávamos banho, agora são um melanoma em estágio avançado. Há alguns dias estou nesta clínica, no subúrbio do Rio de Janeiro. Do meu quarto, no segundo andar, escuto todos os tipos de barulho. Desde os carros velhos, com seus motores desregulados, ao trem passando e os cachorros revirando o lixo. Há dias não sei o que é dormir. Passo as noites observando cada gota do soro, que gradualmente ocupa meu corpo.

Pedi à equipe médica para não autorizar a visita de ninguém. Não quero que me vejam assim. Não quero que sintam pena. Eu, que sempre gostei de fazer as pessoas felizes… Ao mesmo tempo, só quero vê-la… Não, não quero. Não posso.
A enfermeira veio ao quarto avisar-me que há um grupo de pessoas querendo me ver. Disse que houve muita insistência. Entre eles, está ela. Digo não. Por favor, não. Deixem-me em paz. Deixe-a esperando, com seus amigos, na sala de espera do paraíso.

Escrevi este em 2008, inspirado na música homônima do Leoni, disponível para download no site do cantor. Inscrevi-o num concurso promovido pelo próprio e acabei vencendo. Ganhei um lindo e-book de presente. Baixe o conto (em baixa ou alta resolução) e veja o e-book também…

Domingo do Diabo

Samuel adorava a praia. Tanto que já recusou propostas de trabalho em São Paulo pelo simples fato de não poder jogar seu vôlei na areia dos domingos de manhã. Adorava nadar. Só não ia se estivesse chovendo, sempre tomou muito cuidado. Sempre soube que mar e chuva não eram uma boa combinação.
Rita não gostava tanto de mar. Claro que ela gostava de beber uma água de coco para refrescar diante daquele visual exuberante. Mas depois de 7 anos de casados, ela já não acompanhava Samuel com tanta frequência nas idas ao Arpoador. Muitas vezes, quando ela acordava, o café já estava passado e o lado da cama, vazio.
E foi num domingo de manhã bem cedo, quando o sol ainda nem tinha saído, que ele seguiu à Pedra do Diabo. Quando o sol já se punha, ele não retornava a casa. Samuel nunca levava o celular se ela não o acompanhasse. Dizia que não tinha quem tomasse conta. Rita olhava o celular sobre o balcão e o coração apertava. Por que a demora? Olhando o celular do marido, viu que tinha um bilhete embaixo – AMO VOCÊ – escrito em letra de forma. Foi então que ela resolveu procurá-lo. Em vão.
Passaram-se dias, quando o tenente Fábio, amigo do casal, ligou numa manhã chuvosa. Encontraram Samuel. Encontraram o corpo de Samuel. Segundo o amigo, pela fratura no crânio, ele pode ter escorregado da pedra antes de mergulhar. Ou até ter se chocado enquanto nadava…
Por dias, Rita não assimilou isso. No velório, ela estava em choque. O que ele mais gostava de fazer tirou sua vida. O mar carregou seu amor e junto, seu coração. Passaram-se semanas e Rita não voltou ao trabalho. Meses depois, não tinha mais notícias dela.
Já se foram dois anos e domingo passado resolvi ir à praia. Ao Arpoador, para variar. Na mesma Pedra do Diabo encontrei Rita. Sozinha, visivelmente envelhecida. Sentei ao seu lado, ela não me reconheceu. Com os olhos vermelhos, escrevia num papel, que consegui ler antes dela lançá-lo ao mar.

Enquanto meus pés não tocam o chão, eu vôo por entre nuvens densas. Vou me guiando pela distância que mantenho de você. Foi bom ter você em meus braços. Sua ausência continua escrevendo a minha história. Pois se contratempos nos afastaram, a saudade ainda nos mantém unidos… eternamente.

Então, ela levantou, foi embora e não olhou pra trás.

Vanguart – O Mar (Multishow Registro)

A hora da estrela

E daí que já tinha uma história que antecedia tudo? E daí que clássicos são sempre prediletos? E daí que parte disso, nunca chegará perto daquilo que já foi. Daquela hora que já teria sido anunciada pelos sinos mais badalados.

Simplesmente ela se prepara para o impulso inicial/final. Tem sindrome de borboleta: lagarta doida para voar.

Quando mais nova passava tardes encantada em finais felizes. Comprava pipoca e chorava quando o balde de tinta caía sobre a mocinha. E gostava de ficar satisfeita com o final triunfante, da tingida tornar-se a rainha do baile. Naquela época, pensava que tanto já lhe caía sobre a cabeça e ela ainda sonhava em ser a garota do baile. Sabia que num futuro, existiria um baile e, ela adentraria no salão com novos cabelos, novo corpo e o olhar encantador de sempre. E pelo olhar encantador (nunca pelos novos cabelos…) ela seria eleita a rainha.

Então ela cresceu e pipocas nem fazem mais parte da sua rotina. Quiçá tardes e bailes. Porém, há quem diga que ela nasceu para brilhar. Sem perceber e planejar tinha cabelos novos. Superou tantos embates que transformou-se naquilo que muita rainha queria. E ela sequer notava que tudo aquilo que sempre sonhara, já era parte da sua vida. Pelo sorriso e simpatia, “não há no mundo quem não entenda a sua felicidade”.

Porque agora sim, ela está pronta para mudar a sua vida para sempre. Ela deixou de querer ser a rainha do baile para ser rainha de si.

Pato Fu – A hora da estrela

Graças e Louvores

Tinha 26 anos e estava ali por mérito próprio. Reserva imediato da estrela do time, disputava sua primeira Copa do Mundo. Tendo jogado apenas alguns minutos nas eliminatórias, sua convocação era covardemente contestada pela imprensa especializada. Injustamente. Era um jogador extremamente técnico. Apresentava um futebol discreto quanto à arte, mas cirurgicamente eficiente, com passes perfeitos e dribles objetivos. Capaz de muito mais coisa, não o fazia porque não gostava de humilhações. Tinha a convicção de que canetas, chapeus e outras “firulas” eram degradantes para os adversários.

Nos parâmetros do futebol brasileiro, com aquela idade e suas qualidades profissionais, poderia ser estrela de uma equipe europeia. Mas jogava em sua 8ª equipe nacional. Não se firmava por muito tempo em um time. Fora dos gramados, era ainda mais discreto, muito ligado à religião. Fora criado pela avó materna, senhora humilde, rude e católica fervorosa. Conheceu seus pais aos 17, no dia seguinte à sua estreia como jogador profissional. Achava que sua avó era sua mãe, quando na verdade, sua mãe era uma alcoólatra e seu pai, um sub-oficial da Aeronáutica. Seu avô já havia falecido antes de seu nascimento, então sua avó foi  sua única figura materna e paterna. Autoridade máxima. Muito atenciosa e, no entanto, muito pouco carinhosa. Morreu dois anos antes da Copa.

Tinha muitos poucos amigos, não era casado e nem tinha filhos. Parecia ser a exceção à regra de que a família era o alicerce para o equilíbrio emocional e profissional. Para se ter uma ideia, nunca havia levado um cartão vermelho sequer em sua trajetória como segundo atacante. Na seleção, quando seus companheiros juntavam-se para cantar suas tradicionais rodas de pagode, ele deitava-se para ler. Ninguém sabia o que ele gostava de ler, sequer de escutar. Nunca perguntaram.

Chegou o dia da semi-final. A estrela do time desfilava pelos gramados com uma atuação ridícula. O placar não passou de 0 x 0. No intervalo, o treinador sacou o querido da torcida e da imprensa, lançando o reserva. Tocou o gramado com os dedos da mão direita e fez o sinal da cruz. Era impressionante como a bola nunca chegava a ele. Os companheiros pareciam tentar, a todo modo, tocar para um jogador mais distante, pior posicionado, o que resultava quase sempre em perigosos contra-ataques do adversário.

Aos 41 minutos do segundo tempo, o goleiro lançou a bola ao meio campo. Fora buscar. Numa corrida endiabrada, conseguiu vencer com pouca dificuldade os adversários. À linha de fundo, com um cruzamento perfeito, permitiu ao colega zagueiro estufar a rede. Na comemoração, recebeu abraços e sorrisos que estava acostumado a ver e não entendia.

No dia seguinte, a foto no jornal era do autor do gol e seu nome sequer aparecia na legenda: Xerifão salva a pátria – estamos na final. Não estava decepcionado. A rejeição era sua companheira. Estava satisfeito por ter feito seu trabalho e agradecia ao Senhor todos os dias por ter saúde para executá-lo com eficácia e segurança. A cada um cabe o que considerar o alcance da graça. A dele era atingida em quase todos os jogos. Já os louvores, já desistiu de receber. Aguarda apenas a próxima oportunidade. O jogo mais esperado dos últimos 4 anos é daqui a 12 horas.

Por que não eu?

Já era noite quando ela recebe uma ligação. Atende sorrindo, como sempre. “… é, saudades…” – ela diz. Um convite despretensioso como ele sempre fazia. Ela topa, como sempre topou.

Ele atrasa e ela não se importa. Sempre soube que ele demorava. Todos os finais de semana eram assim: ele liga, ela topa, ele atrasa, ela não se importa e eles saem. Não tem lugar certo mas, a casa dele é um dos recorrentes destinos.

Ficam os dois meio esparramados. Um no sofá, outro no tapete. Uma bebida quase sem gelo e risos sobre a rotina. Ela pergunta sobre a semana e ele provoca os assuntos filosóficos que ela tanto ama. E mesmo que ela diga que não quer filosofar, que morre de preguiça e que não quer pensar no final de semana, ela passa horas argumentando sobre a vida. E ele (se) encanta.

Ela sorri fazendo trocadilhos, coloca os pés no braço do sofá. Suspira, deseja e abraça o que tiver por perto: almofadas, garrafas, travesseiros… Exceto ele, que se cala. A íris fala, mas ela insiste em deixá-lo do avesso. Ela: borboleta, voadora, caça e caçadora.  Ele:  esquecido, o avesso, adormecido.

Eles brincam de confidências há anos. Se conhecem tanto e tão pouco. E aquela intimidade que intimida qualquer passo. Adormece meio solta no colo de um amigo. Amanhece como sempre: solta e só.

E para depois? Quem sabe, os dois.

Porque não eu?

Leoni/Paula Toller/Herbert Vianna

Dindi

Subiu as escadas sem sentir as passadas. Era como uma dança flutuante. Ao entrar, pendurando as chaves, o chacoalhar das mesmas mais parecia música. Fazia tanto calor aquela noite e, mesmo assim, não saiu arrancando as pesadas calças jeans e o blazer, como de praxe. Pôs-se a ouvir um tal Tom Jobim. Da varanda, a admirar as nuvens que passavam ligeiras.

Abriu a última garrafa de água da geladeira e, em vez de beber, enxergava aqueles olhos dentro do copo. Pareciam o reflexo dos seus, mas não era. Acendeu um cigarro e, depois do primeiro trago, a fumaça que passeava à meia-luz trazia à tona aquela voz, leve e macia.

Não sabia seu nome, nem se deu ao trabalho de perguntar. Não por falta de interesse, muito pelo contrário. Ao vê-la pela primeira e única vez, encontrava-se perdidamente hipnotizado por aquela moça, que conseguia ser tímida e engraçada, tamanha sua naturalidade. Ele, que gostava de falar, tomar partido nas conversas, foi o melhor ouvinte que jamais se julgou capaz de ser. O tempo que passaram dentro da barca que fazia o trajeto Rio – Niterói foi capaz de construir um encanto mútuo. Uma prova disso foi que nem perceberam quando a embarcação parou no meio da Baía de Guanabara, por problemas técnicos.

E chegou a hora da despedida. E nem sequer trocaram telefones. Ele só pensava em ficar, esperava que ela o levasse para onde fosse. Para ele, ela era a coisa mais linda que existe. Se é que existe.

Lanny Gordin & Gal Costa – Dindi

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