Contos Musicais

Por trás de uma grande canção, uma grande história

A hora da estrela

E daí que já tinha uma história que antecedia tudo? E daí que clássicos são sempre prediletos? E daí que parte disso, nunca chegará perto daquilo que já foi. Daquela hora que já teria sido anunciada pelos sinos mais badalados.

Simplesmente ela se prepara para o impulso inicial/final. Tem sindrome de borboleta: lagarta doida para voar.

Quando mais nova passava tardes encantada em finais felizes. Comprava pipoca e chorava quando o balde de tinta caía sobre a mocinha. E gostava de ficar satisfeita com o final triunfante, da tingida tornar-se a rainha do baile. Naquela época, pensava que tanto já lhe caía sobre a cabeça e ela ainda sonhava em ser a garota do baile. Sabia que num futuro, existiria um baile e, ela adentraria no salão com novos cabelos, novo corpo e o olhar encantador de sempre. E pelo olhar encantador (nunca pelos novos cabelos…) ela seria eleita a rainha.

Então ela cresceu e pipocas nem fazem mais parte da sua rotina. Quiçá tardes e bailes. Porém, há quem diga que ela nasceu para brilhar. Sem perceber e planejar tinha cabelos novos. Superou tantos embates que transformou-se naquilo que muita rainha queria. E ela sequer notava que tudo aquilo que sempre sonhara, já era parte da sua vida. Pelo sorriso e simpatia, “não há no mundo quem não entenda a sua felicidade”.

Porque agora sim, ela está pronta para mudar a sua vida para sempre. Ela deixou de querer ser a rainha do baile para ser rainha de si.

Pato Fu – A hora da estrela

Por que não eu?

Já era noite quando ela recebe uma ligação. Atende sorrindo, como sempre. “… é, saudades…” – ela diz. Um convite despretensioso como ele sempre fazia. Ela topa, como sempre topou.

Ele atrasa e ela não se importa. Sempre soube que ele demorava. Todos os finais de semana eram assim: ele liga, ela topa, ele atrasa, ela não se importa e eles saem. Não tem lugar certo mas, a casa dele é um dos recorrentes destinos.

Ficam os dois meio esparramados. Um no sofá, outro no tapete. Uma bebida quase sem gelo e risos sobre a rotina. Ela pergunta sobre a semana e ele provoca os assuntos filosóficos que ela tanto ama. E mesmo que ela diga que não quer filosofar, que morre de preguiça e que não quer pensar no final de semana, ela passa horas argumentando sobre a vida. E ele (se) encanta.

Ela sorri fazendo trocadilhos, coloca os pés no braço do sofá. Suspira, deseja e abraça o que tiver por perto: almofadas, garrafas, travesseiros… Exceto ele, que se cala. A íris fala, mas ela insiste em deixá-lo do avesso. Ela: borboleta, voadora, caça e caçadora.  Ele:  esquecido, o avesso, adormecido.

Eles brincam de confidências há anos. Se conhecem tanto e tão pouco. E aquela intimidade que intimida qualquer passo. Adormece meio solta no colo de um amigo. Amanhece como sempre: solta e só.

E para depois? Quem sabe, os dois.

Porque não eu?

Leoni/Paula Toller/Herbert Vianna