Contos Musicais

Por trás de uma grande canção, uma grande história

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Graças e Louvores

Tinha 26 anos e estava ali por mérito próprio. Reserva imediato da estrela do time, disputava sua primeira Copa do Mundo. Tendo jogado apenas alguns minutos nas eliminatórias, sua convocação era covardemente contestada pela imprensa especializada. Injustamente. Era um jogador extremamente técnico. Apresentava um futebol discreto quanto à arte, mas cirurgicamente eficiente, com passes perfeitos e dribles objetivos. Capaz de muito mais coisa, não o fazia porque não gostava de humilhações. Tinha a convicção de que canetas, chapeus e outras “firulas” eram degradantes para os adversários.

Nos parâmetros do futebol brasileiro, com aquela idade e suas qualidades profissionais, poderia ser estrela de uma equipe europeia. Mas jogava em sua 8ª equipe nacional. Não se firmava por muito tempo em um time. Fora dos gramados, era ainda mais discreto, muito ligado à religião. Fora criado pela avó materna, senhora humilde, rude e católica fervorosa. Conheceu seus pais aos 17, no dia seguinte à sua estreia como jogador profissional. Achava que sua avó era sua mãe, quando na verdade, sua mãe era uma alcoólatra e seu pai, um sub-oficial da Aeronáutica. Seu avô já havia falecido antes de seu nascimento, então sua avó foi  sua única figura materna e paterna. Autoridade máxima. Muito atenciosa e, no entanto, muito pouco carinhosa. Morreu dois anos antes da Copa.

Tinha muitos poucos amigos, não era casado e nem tinha filhos. Parecia ser a exceção à regra de que a família era o alicerce para o equilíbrio emocional e profissional. Para se ter uma ideia, nunca havia levado um cartão vermelho sequer em sua trajetória como segundo atacante. Na seleção, quando seus companheiros juntavam-se para cantar suas tradicionais rodas de pagode, ele deitava-se para ler. Ninguém sabia o que ele gostava de ler, sequer de escutar. Nunca perguntaram.

Chegou o dia da semi-final. A estrela do time desfilava pelos gramados com uma atuação ridícula. O placar não passou de 0 x 0. No intervalo, o treinador sacou o querido da torcida e da imprensa, lançando o reserva. Tocou o gramado com os dedos da mão direita e fez o sinal da cruz. Era impressionante como a bola nunca chegava a ele. Os companheiros pareciam tentar, a todo modo, tocar para um jogador mais distante, pior posicionado, o que resultava quase sempre em perigosos contra-ataques do adversário.

Aos 41 minutos do segundo tempo, o goleiro lançou a bola ao meio campo. Fora buscar. Numa corrida endiabrada, conseguiu vencer com pouca dificuldade os adversários. À linha de fundo, com um cruzamento perfeito, permitiu ao colega zagueiro estufar a rede. Na comemoração, recebeu abraços e sorrisos que estava acostumado a ver e não entendia.

No dia seguinte, a foto no jornal era do autor do gol e seu nome sequer aparecia na legenda: Xerifão salva a pátria – estamos na final. Não estava decepcionado. A rejeição era sua companheira. Estava satisfeito por ter feito seu trabalho e agradecia ao Senhor todos os dias por ter saúde para executá-lo com eficácia e segurança. A cada um cabe o que considerar o alcance da graça. A dele era atingida em quase todos os jogos. Já os louvores, já desistiu de receber. Aguarda apenas a próxima oportunidade. O jogo mais esperado dos últimos 4 anos é daqui a 12 horas.